Como temos regularmente feito toda a inspeção do barco, e nos dedicado sempre a cuidar bem do Taouhiri, ele não tem apresentado grandes problemas além daquelas manutenções necessárias e periódicas. Alguma vez ou outra reparamos algum cabo mais desgastado, um moitão mais sofrido ou alguma coisinha para consertar. Felizmente não temos tido nenhum problema mais sério. Apesar que tenho ouvido muitos velejadores afirmarem que "barco é uma forma segura para alguém nunca mais ficar sem nada para fazer na vida", a verdade é que não podemos reclamar nada do Taouhiri e são poucas as preocupações que temos além daquelas normais.
Alternamos momentos de (pouco) trabalho no barco com (muitos) momentos de lazer no Cabanga Iate Clube, nestes dias de espera para a largada da regata para Fernando de Noronha no próximo dia 25. Entre revisões de motor e do sistema de leme, limpeza e lubrificação de catracas,verificação das bombas de água, abastecimento de diesel, gasolina e mantimentos para os próximos 10 dias no mar, revisão das âncoras e seus cabos, temos encontrados muitos amigos nas diversas ocasiões festivas que costumam acontecer nestas épocas que antecedem a regata. Anteontem tivemos uma grande feijoada, ontem foi um churrasco patrocinado pelo pessoal gaúcho em comemoração à data farroupilha lá no Rio Grande do Sul. Hoje teremos outro churasco, desta vez patrocinado pelo pessoal do Costa Leste e nos próximos dias as festas comemorativas do Cabanga para a Refeno.
E assim vamos fazendo e reencontrando amigos. Ontem tive a oportunidade de rever o Gigante do Veleiro Entre Polos. Conheci-o lá nos tempos em que construía o Taouhiri na beira da BR 101 quando por diversas vezes ele atuou como entregador de peças inox do querido Santo, um grande artesão do aço. Trazia peças que eu havia encomendado lá em Porto Alegre e conversávamos nestas ocasiões em que ele passava em direção à Porto Belo, onde morava e vindo de Porto Alegre onde construía seu barco. Depois daquelas conversas na beira da estrada voltamos a nos reencontrar em Fernando de Noronha em 2008, quando ele acabava de chegar de uma viagem em solitário desde a Europa. Hoje falamos sobre as viagens dele no Caribe, o tempo na Europa com a família, a volta para o Brasil em solitário, os planos dele para o Pacífico dentro de mais alguns anos e outros projetos. Desta vez eu vou para a 2a Refeno e ele já deve estar lá pela terceira ou quarta regata até Noronha. Caminhos que se entrecruzam de pessoas que admiram e gostam de viver no mar.
Outra figura querida que encontrei aqui é do Jan, um simpático senhor de barbas e cabelos brancos que viaja em solitário com sua cachorrinha poodle de companhia. Ele é meio holandês e meio gaúcho e vive no mar há muitos anos. Pelos cálculos que fazia outro dia, computando sua vida de capitão de navios entre o Brasil e a Holanda durante sua vida profissional, ele tem mais de um milhão de milhas navegadas, uma marca impressionante para qualquer um. Hoje ele está aposentado e navega no Jamaluce, um barco de aço que mais parece uma fortaleza.
Bem, velejar em alto mar não tem nada daquela imagem estereotipada de pessoas elegantes, invariavelmente com os cabelos bem-penteados, roupas limpas e alinhadas, barba recém feita e Rolex nos pulsos. A realidade, no entanto... é bem diferente. Travessias são, em geral, bastante incômodas. O que se vê na chegada dos barcos após longas temporadas no mar é em geral de arrepiar: zumbis cambaleando com os cabelos desgrenhados numa mistura de suor, sal, sol e vento. As mãos e corpos sujos de óleo e graxa, barba por fazer e as roupas em estado de miséria formam um quadro um pouco aterrador.
Já havíamos feito a costa brasileira em 2008, partindo de Florianópolis. Navegamos até Natal, depois de passar por Fernando de Noronha e outros maravilhosos pontos de nosso imenso litoral (Ilhabela, Paraty, Angra. Rio de Janeiro, Búzios, Vitória, Abrolhos, a enorme extensão do litoral baiano com suas inúmeras paradisíacas praias e pequenos vilarejos perdidos no tempo - Caravelas, Santo André, Baía de Camamu, Ilhéus, Morro de São Paulo. Depois Salvador/Itaparica, onde ficamos quase um mês. Uma velejada fantástica para Maceió, uma escala curta em Suape (que de lugar pitoresco estava em transformação para ser um importante polo petrolífero e uma grande refinaria do Nordeste) e finalmente Recife, de onde partiria a regata Recife/Fernando de Noronha.
Naquele ano foram 4 meses duros, lindos, e que estamparam, tenho certeza, uma imagem inesquecível em toda a tripulação com que tive o privilégio de compartilhar aqueles momentos.
terça-feira, 21 de setembro de 2010
quarta-feira, 15 de setembro de 2010
Praia de Carneiros / Recife
De Maceió até a Praia de Carneiros são apenas 80 milhas e aproveitando um vento bom e favorável acamos fazendo este trecho em 10 horas, uma média de 8 nós. Foi um trajeto muito tranquilo, com vento e mar a favor. Não entrou uma gota de água no barco, que vinha bem estável e rápido.
O mais difícil foi a entrada na Praia de Carneiros, onde tivemos que aguardar até a maré alta e a chegada de um prático para orientar-nos na entrada, já que seria quase impossível entrar naquele lugar sem a ajuda de pessoas do local. Éramos quatro veleiros que seguiam em fila indiana por entre recifes e bancos de areia, com ondas rebentando na passagem, num ziguezaguear paralelo à praia e às vezes com uma profundidade que mal dava para entrar; depois de uma hora e meia e bem no finalzinho da tarde acabamos chegando num luar paradisíaco como poucas vezes conheci, na entrada de um rio com coqueiros dos dois lados e poucas casas de pescadores. No outro dia fizemos uma caminhada de uns 10 km até o povoado mais próximo, Tamandaré. É uma cidadezinha que vive basicamente do turismo e tem alguns prédios remanescentes de outros tempos, como igrejas e um forte de 1690. Voltamos de táxi para o barco e no final da tarde ainda fizemos uma incursão de botinho pelo interior do rio Ariquindá, um extenso rio rodeado por manguezais e alguns raros pescadores nas margens de vez em quando.
Saímos de Carneiros dois dias depois no mesmo ritual de travessia, agora sem o prático. O Tuareg com o calado menor foi na frente fazendo a medição de profundidade e ajudados pelo GPS acabamos alcançando o mar e 40 milhas e poucas horas depois de uma bela velejada entramos no Cabanga Iate Clube. É deste clube que sai no próximo dia 25 a regata Recife/Fernando de Noronha. Enquanto isso vamos preparar o barco para a Refeno (www.refeno.com.br) pois ainda temos inúmeras tarefas para deixar tudo pronto para a largada.
O mais difícil foi a entrada na Praia de Carneiros, onde tivemos que aguardar até a maré alta e a chegada de um prático para orientar-nos na entrada, já que seria quase impossível entrar naquele lugar sem a ajuda de pessoas do local. Éramos quatro veleiros que seguiam em fila indiana por entre recifes e bancos de areia, com ondas rebentando na passagem, num ziguezaguear paralelo à praia e às vezes com uma profundidade que mal dava para entrar; depois de uma hora e meia e bem no finalzinho da tarde acabamos chegando num luar paradisíaco como poucas vezes conheci, na entrada de um rio com coqueiros dos dois lados e poucas casas de pescadores. No outro dia fizemos uma caminhada de uns 10 km até o povoado mais próximo, Tamandaré. É uma cidadezinha que vive basicamente do turismo e tem alguns prédios remanescentes de outros tempos, como igrejas e um forte de 1690. Voltamos de táxi para o barco e no final da tarde ainda fizemos uma incursão de botinho pelo interior do rio Ariquindá, um extenso rio rodeado por manguezais e alguns raros pescadores nas margens de vez em quando.
Saímos de Carneiros dois dias depois no mesmo ritual de travessia, agora sem o prático. O Tuareg com o calado menor foi na frente fazendo a medição de profundidade e ajudados pelo GPS acabamos alcançando o mar e 40 milhas e poucas horas depois de uma bela velejada entramos no Cabanga Iate Clube. É deste clube que sai no próximo dia 25 a regata Recife/Fernando de Noronha. Enquanto isso vamos preparar o barco para a Refeno (www.refeno.com.br) pois ainda temos inúmeras tarefas para deixar tudo pronto para a largada.
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